Você sabia que planos de saúde já estão criando clínicas próprias para prestar serviços de Análise do Comportamento Aplicada (ABA) a pessoas com autismo?
Essa tendência — chamada de verticalização — está se expandindo silenciosamente no Brasil e pode transformar radicalmente a forma como os serviços de ABA são ofertados. Neste artigo, discutimos os impactos dessa mudança para profissionais, clínicas independentes, famílias e reguladores. Também destacamos o papel essencial dos analistas do comportamento na garantia da qualidade e da ética no cuidado.
O que é verticalização na saúde suplementar?
No contexto da saúde suplementar, verticalização significa que a operadora passa a controlar não apenas o plano de saúde, mas também a prestação dos serviços de assistência à saúde. Ou seja, em vez de credenciar prestadores externos, ela investe em estrutura própria: hospitais, clínicas, laboratórios, centros de imagem — e, num horizonte próximo, clínicas ABA.
Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), em 2023 cerca de 30% das operadoras médicas já operavam com algum grau de verticalização. Grandes grupos como Hapvida, NotreDame Intermédica, Amil e SulAmérica já possuem redes próprias de atendimento ou atuam em parceria com grupos verticais.
Por que a ABA entrou nessa tendência?
A Terapia ABA é reconhecida como uma das principais intervenções clínicas baseada em evidência para o tratamento de pessoas com TEA, e sua demanda cresceu exponencialmente nos últimos anos. Dados do Ministério da Saúde apontam que o número de diagnósticos de autismo no Brasil aumentou mais de 200% na última década.
Em 2022, a ANS incluiu a ABA de forma mais clara no rol de procedimentos obrigatórios, obrigando os planos a oferecerem cobertura. Com a oficialização da cobertura obrigatória da “Terapia ABA” pelo rol da ANS, somada ao aumento significativo nos diagnósticos de TEA no Brasil, operadoras começaram a estruturar suas próprias clínicas ou absorver esse serviço em unidades de atendimento integrado.
Na teoria, a verticalização pode trazer benefícios como a padronização de processos clínicos, maior agilidade no início dos atendimentos e integração com outros especialistas da rede. No entanto, é fundamental considerar os riscos práticos desse modelo, especialmente em uma área como a ABA, que exige personalização das intervenções, supervisão qualificada e formação contínua das equipes.
Verticalização: Boa ideia para quem?
Defensores da verticalização frequentemente apontam a redução de custos para as operadoras como uma vantagem, embora tais economias raramente sejam repassadas aos usuários. Também se argumenta que a rede própria traria maior agilidade no início dos atendimentos; entretanto, na prática, há registros de formação de filas de espera mesmo dentro dessas estruturas.
Apesar desses supostos benefícios, existem críticas crescentes ao modelo verticalizado. Principalmente se isso for implementado diretamente à ABA. Uma dessas críticas é que haveria menor liberdade de escolha, já que famílias são muitas vezes obrigadas a aceitar apenas os serviços da rede própria, sem possibilidade de escolha por terapeutas externos com quem já tenham algum tipo de vínculo.
Deve-se lembrar também que embora protocolos gerais sejam importantes, o tratamento ABA precisa ser individualizado. Clínicas verticalizadas, por vezes, adotam modelos de gestão, com pouco espaço para adaptações personalizadas.
Há também o problema da especialização. Quem busca os serviços costuma relatar a existência de equipes formadas por profissionais pouco experientes ou com formação insuficiente em ABA, especialmente nas clínicas recém-criadas por planos de saúde.
Não se deve desconsiderar a maneira como os planos de saúde costumam tratar seus clientes. Pensando de forma simples sempre há o risco da operadora romper o contrato unilateralmente com a família, a criança pode ser retirada do ambiente terapêutico abruptamente, o que certamente acarreta em traumas para essa criança.
Dilemas éticos, conflitos de interesse e segurança do cliente
O aspecto mais sensível e preocupante da verticalização dos serviços de saúde está nos riscos éticos que ela impõe, especialmente quando envolve o cuidado de populações vulneráveis, como pessoas com transtorno do espectro autista. Ao concentrar na mesma operadora a responsabilidade pelo financiamento e pela prestação do serviço, cria-se um claro conflito de interesses: o incentivo à contenção de custos pode comprometer diretamente a qualidade, a segurança e a continuidade da intervenção terapêutica. Nesses cenários, a autonomia clínica cede espaço a metas administrativas, colocando em risco o direito do paciente a um cuidado individualizado e baseado em evidências.
A fragilidade histórica da fiscalização por parte das agências reguladoras, como a ANS, agrava essa situação. Sem mecanismos eficazes de monitoramento e responsabilização, famílias acabam recorrendo à judicialização para garantir o acesso a serviços qualificados fora da rede própria, muitas vezes denunciando a insuficiência de sessões e até casos de negligência — como já registrado em estados como São Paulo e Bahia.
Se a verticalização tornar-se, em alguma medida, uma tendência irreversível no setor, é fundamental reconhecer que ela pode gerar concentração de mercado, reduzir a concorrência e limitar significativamente as opções do consumidor. Nesse contexto, o papel do regulador é garantir o equilíbrio: promover a eficiência sem sacrificar a equidade, a liberdade de escolha e, acima de tudo, a segurança do cliente. A vigilância ética, o controle público e o fortalecimento de práticas baseadas na ciência são essenciais para assegurar que esse modelo atenda, de fato, aos interesses de quem mais importa: o usuário do sistema de saúde.
Mas o que isso significa, na prática? E o que os analistas do comportamento e clínicas independentes têm a ver com isso?
Diante dos desafios impostos pela verticalização dos serviços de saúde, os analistas do comportamento assumem um papel estratégico na preservação da integridade do cuidado prestado. São esses profissionais que garantem a aplicação de intervenções baseadas em evidências, construídas a partir de avaliações funcionais individualizadas — princípio central da Análise do Comportamento Aplicada (ABA). Além disso, sua atuação é decisiva para manter padrões éticos e clínicos elevados, mesmo em contextos de pressão por produtividade ou redução de custos. A responsabilidade pela formação, supervisão e qualificação contínua das equipes técnicas também recai sobre esses analistas, cuja presença assegura que a ABA permaneça fiel à sua natureza científica, e não se transforme em um serviço padronizado e despersonalizado.
Para que a expansão das redes verticalizadas não comprometa a qualidade dos atendimentos, algumas medidas estratégicas são indispensáveis. É fundamental valorizar clínicas lideradas por profissionais com competência técnica reconhecida, além de estabelecer requisitos regulatórios claros quanto à formação mínima, supervisão qualificada e carga horária adequada para os serviços prestados. A atuação mais incisiva da ANS na fiscalização da efetividade e segurança dessas práticas é igualmente urgente. Outro ponto central é a defesa da autonomia clínica dos analistas do comportamento dentro das estruturas verticalizadas, evitando interferências administrativas indevidas. Por fim, é essencial promover um diálogo construtivo entre operadoras, profissionais, famílias e entidades científicas, com foco na construção de modelos de cuidado que preservem a qualidade e os direitos do usuário.
O impacto da verticalização dependerá das escolhas éticas, técnicas e regulatórias que orientarem sua implementação. Em áreas como a ABA, onde a personalização e a análise funcional são pilares inegociáveis, essas decisões são determinantes. Analistas do comportamento têm, portanto, um papel técnico, ético e estratégico na construção de um modelo de atenção que seja centrado na pessoa, pautado pela ciência e comprometido com resultados verdadeiramente significativos.
A ciência comportamental não pode ser reduzida a uma série de protocolos replicáveis e criados com IA.
É preciso proteger sua essência, sua qualidade — e, acima de tudo, o bem-estar dos indivíduos que dela dependem.
Gostou do conteúdo?
Compartilhe com colegas, gestores ou profissionais da saúde.
Quer receber mais artigos como este? Acompanhe nossos canais institucionais.