A pergunta que orienta esta revisão é: quais variáveis interferem no engajamento parental em terapia ABA e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) pode ajudar a remover barreiras no treinamento parental? A resposta mais precisa é que o engajamento resulta da interação entre condições estruturais, características do serviço, contexto familiar e processos psicológicos do cuidador. ACT pode ajudar a reduzir barreiras psicológicas modificáveis — como esquiva experiencial, autocrítica, fusão com pensamentos de incapacidade e afastamento dos próprios valores —, mas não substitui adaptações de horário, acesso, transporte, suporte financeiro, clareza de papéis e divisão de cuidado. Portanto, uma intervenção ética combina alterações no serviço com coaching baseado em habilidades comportamentais e, quando apropriado e dentro da competência profissional, componentes ACT.
O que a literatura mostra sobre ACT e treinamento parental
A primeira revisão sistemática específica sobre ACT para pais de crianças e adolescentes autistas identificou apenas oito estudos: um ensaio randomizado, um quase-experimento e seis estudos exploratórios. Os resultados foram favoráveis para processos ACT, saúde mental e qualidade de vida, porém a base era pequena, heterogênea e com poucos ensaios robustos (Juvin et al., 2022).
Evidências posteriores fortalecem a conclusão de que ACT pode melhorar desfechos parentais. Em um ensaio randomizado com 54 cuidadores, um workshop grupal breve de ACT, comparado à lista de espera, produziu melhoras superiores em depressão parental e sofrimento familiar, além de ganhos iniciais em afeto positivo e alcance de metas; os ganhos dos participantes que completaram o programa foram mantidos no seguimento de quatro meses (Maughan et al., 2024). Esses achados apoiam ACT como intervenção para bem-estar parental, mas não mensuram diretamente o uso cotidiano de estratégias ABA.
O estudo mais diretamente relacionado a ABA foi conduzido por Andrews et al. (2022). Quatro díades participaram, por teleatendimento, de ACT integrado a componentes do currículo RUBI, um treinamento parental fundamentado em ABA. A implementação parental alcançou e manteve níveis altos; estresse e esquiva experiencial diminuíram em três cuidadores. Contudo, ACT e treinamento comportamental foram oferecidos como um único pacote. Assim, o estudo não permite concluir que ACT, isoladamente, aumentou a fidelidade parental, nem que a redução da esquiva experiencial mediou a mudança na implementação.
Maughan et al. (2024) também descrevem um ensaio pequeno anterior em que pais que recebiam ABA participaram de um workshop de ACT. Comparado ao grupo ABA sem ACT, o grupo ACT apresentou melhoras autorreferidas em mindfulness, esquiva experiencial, fusão cognitiva, consistência com valores e depressão; não houve seguimento. Em conjunto, esses estudos sugerem que ACT é um complemento promissor, e não uma estratégia já comprovada para elevar o engajamento parental em ABA em larga escala.
A formulação clínica mais adequada é a seguinte: ACT pode aumentar a disponibilidade do cuidador para praticar repertórios ensinados no treinamento parental, especialmente quando pensamentos, emoções e experiências aversivas funcionam como barreiras à ação. Isso permanece uma hipótese de processo plausível, ainda não uma cadeia causal demonstrada em ABA:
ACT → maior flexibilidade psicológica / menor esquiva experiencial → maior prática e fidelidade parental → melhores desfechos para a criança.
O que conta como engajamento parental
A literatura usa o termo “engajamento” de maneiras diferentes. Para fins de avaliação ABA, é preferível separar quatro dimensões:
- Engajamento inicial: intenção de participar e matrícula no programa.
- Engajamento continuado: presença, retenção, conclusão de módulos e ausência de abandono.
- Engajamento ativo: compreensão, perguntas, ensaio comportamental, planejamento, tarefa entre sessões e participação nas decisões.
- Fidelidade de implementação: execução correta e consistente da estratégia com a criança na rotina-alvo.
Essa distinção importa porque frequência não equivale a participação ativa; participação ativa não equivale a prática em casa; e prática não garante fidelidade ou generalização. A revisão de Chacko et al. (2016) mostrou que estudos de treinamento comportamental parental frequentemente relatam presença e abandono, mas medem de modo insuficiente participação durante as sessões e realização de tarefas. Revisões de programas parentais também distinguem engajamento inicial, continuado e qualidade de participação (Finan et al., 2018).
Em intervenções mediadas por cuidadores no autismo, fidelidade é um desfecho proximal especialmente relevante. Uma revisão de Trembath et al. (2019) identificou 45 fatores potencialmente associados a desfechos parentais e infantis, entre eles adesão, fidelidade, fatores da criança, acesso a serviços e características parentais. A conclusão central não foi que existe uma lista universal de preditores, mas que a heterogeneidade de medidas impede identificar com segurança para quem, em que contexto e por quais mecanismos os programas funcionam.
Variáveis que interferem no engajamento parental em ABA
Barreiras estruturais e carga de vida
A evidência mais direta em ABA indica que o engajamento é limitado por condições materiais e de organização da vida familiar. Em grupos focais com sete familiares, cinco RBTs e seis BCBAs de serviços ABA domiciliares, foram relatados como obstáculos: atendimento no período noturno, demandas concorrentes de trabalho, escola e outros filhos, falta de clareza sobre o papel do cuidador, dificuldades de comunicação e rotatividade de equipe. Relacionamento colaborativo, coaching, comunicação clara e oportunidades de participação foram citados como facilitadores (Ferretti et al., 2025).
Em um estudo fenomenológico com oito mães vinculadas a um único serviço de ABA, as barreiras predominantes foram restrição de tempo, suporte familiar insuficiente e lacunas de comunicação. Progresso percebido da criança, suporte econômico/estrutural e motivação apareceram como facilitadores (Mambuca, 2026). Como se trata de uma amostra pequena e de um único local, os resultados não podem ser generalizados; ainda assim, a interpretação é clinicamente útil: a participação não deve ser atribuída a uma suposta “falta de motivação” sem analisar o custo real imposto pelo serviço à rotina familiar.
A perspectiva dos provedores confirma que as condições familiares e organizacionais precisam ser consideradas. Em serviços comunitários para famílias autistas usuárias de Medicaid, barreiras familiares foram a única categoria que predisse de forma independente menor extensão do treinamento parental, medida composta por frequência e qualidade (β = −0,27). Barreiras logísticas, estressores e estrutura familiar, suporte da agência e formação profissional foram os temas centrais (Straiton et al., 2021).
Implicação clínica: horário, transporte, cuidado de irmãos, carga de terapias, trabalho, instabilidade financeira, suporte de coparentes e acesso digital são variáveis de contexto. Elas não devem ser tratadas como resistência do cuidador; são alvos de modificação do desenho e da entrega do serviço.
Aceitabilidade, usabilidade e relação de coaching
Em um estudo piloto de intervenção mediada por pais via teleatendimento, participantes que receberam assistência do terapeuta apresentaram maior uso da plataforma e maior conclusão do programa do que os participantes em modalidade autoinstrucional. A conclusão foi associada a mais conhecimento e maior fidelidade; aceitabilidade, usabilidade e satisfação apresentaram associações positivas com conclusão, enquanto sintomas depressivos pré-tratamento se associaram negativamente à conclusão (Ingersoll & Berger, 2015).
Embora não seja um estudo de ABA tradicional, esse achado é altamente aplicável ao coaching ABA. Feedback contingente, modelação, ensaio com a própria criança, revisão de obstáculos e apoio responsivo do terapeuta podem diminuir o custo de resposta e aumentar a probabilidade de prática entre sessões. De modo consistente, pais de crianças autistas apontaram como facilitadores do treinamento comportamental parental o feedback profissional de apoio, a flexibilidade e acessibilidade do formato, a viabilidade financeira e o suporte social-emocional (Raulston et al., 2019).
Saúde mental e processos psicológicos do cuidador
Sintomas depressivos, estresse, autoeficácia, expectativas e obstáculos percebidos podem interferir no engajamento, mas as associações não são uniformes. A revisão de Pereira e Barros (2019), com 37 estudos prospectivos, indicou que percepção dos problemas da criança, crenças sobre parentalidade, atribuições, autoeficácia, expectativas de tratamento, obstáculos percebidos e motivação global podem estar relacionados à participação. Como essa revisão não é específica de autismo ou ABA, seus achados devem informar avaliação individual, não previsões determinísticas.
No estudo de Ingersoll e Berger (2015), maior sintomatologia depressiva inicial associou-se a menor conclusão. No estudo ACT+RUBI, redução de estresse e esquiva experiencial ocorreu paralelamente ao aumento da implementação parental, mas sem teste formal de mediação (Andrews et al., 2022). ACT é especialmente relevante nesse ponto: ela busca ampliar a capacidade de manter contato com experiências privadas difíceis — como culpa, exaustão, ansiedade antecipatória e pensamentos de incompetência — sem deixar que essas experiências determinem automaticamente a desistência da ação valorizada.
Isso não significa que o cuidador deva “aceitar” um plano inviável. A aplicação ética de ACT inclui discriminar entre desconforto inevitável, que pode ser acolhido durante uma ação escolhida, e barreiras externas reais, que requerem mudança do plano, redução de exigências ou suporte adicional.
Variáveis da criança, família e cultura
Linguagem, cognição, desafios comportamentais, demandas de cuidado, apoio social e acesso a outros serviços podem alterar a dificuldade de implementação e as oportunidades de prática. Contudo, características da criança não devem ser usadas para antecipar baixa adesão familiar. O foco analítico deve ser a interação entre demanda da criança, repertório parental a ensinar, rotina familiar, recursos, valores, esforço exigido e consequências produzidas pelo plano (Trembath et al., 2019).
Da mesma forma, renda, raça, etnia, idioma e estrutura familiar não são causas intrínsecas de baixo engajamento. Quando há diferenças de acesso ou retenção, a investigação deve priorizar barreiras relacionadas a recursos, adequação cultural e linguística, representação profissional, experiência prévia com serviços, comunicação e segurança relacional.
Principais limitações metodológicas dos estudos sobre variáveis intervenientes no engajamento em ABA
A literatura atual não permite afirmar com segurança quais variáveis causam maior ou menor engajamento em ABA. As limitações mais importantes são as seguintes.
Definições e medidas inconsistentes. “Engajamento” pode significar matrícula, presença, retenção, participação em sessão, tarefa de casa, prática, aceitabilidade ou fidelidade. Muitos estudos medem somente frequência ou conclusão; poucos observam implementação em rotina natural. Essa heterogeneidade dificulta comparar resultados e estabelecer quais componentes predizem mudanças clinicamente relevantes (Chacko et al., 2016; Finan et al., 2018).
Poucos testes de mediação e moderação. A maioria dos estudos relata associações ou percepções de pais/profissionais. Para demonstrar uma variável interveniente seria necessário mostrar que a intervenção altera a variável e que essa mudança explica, temporal e estatisticamente, a mudança em engajamento, fidelidade ou desfechos infantis. Trembath et al. (2019) identificaram explicitamente a necessidade de estudos que examinem preditores, moderadores e mediadores de modo sistemático.
Escassez de estudos diretamente em ABA. Parte importante da evidência vem de intervenções mediadas por cuidadores, treinamento comportamental parental geral, saúde mental infantil ou teleatendimento. Esses achados são úteis, mas a transferência para ABA intensiva, ABA domiciliar ou coaching conduzido por BCBA deve ser feita com cautela. Ferretti et al. (2025) destacam que existe pouca pesquisa quantitativa sobre a viabilidade e eficácia de acrescentar treinamento parental à ABA domiciliar liderada por profissionais.
Amostras pequenas, locais únicos e seleção de participantes. Estudos diretamente em ABA tendem a utilizar grupos focais ou delineamentos de caso único. Isso é útil para gerar hipóteses e analisar processos, mas restringe generalização e estimativa de efeito. Além disso, participantes de pesquisas de treinamento parental frequentemente são mães, têm disponibilidade para participar e maior acesso a tecnologia ou serviços, o que pode sub-representar famílias com maiores barreiras.
Intervenções multicomponentes e ausência de análise de componentes. Nos estudos de ACT integrada ao treinamento parental, ACT, ensino de habilidades ABA, teleatendimento, feedback e dever de casa ocorrem juntos. Sem comparação entre componentes ou grupos ativos de controle, não é possível atribuir uma melhora à ACT especificamente (Andrews et al., 2022).
Dependência de autorrelato e desfechos avaliados pela mesma fonte. Estresse, aceitabilidade, prática e comportamento da criança são frequentemente relatados pelo mesmo cuidador. Isso pode introduzir viés de expectativa e inflar associações. Medidas observacionais de fidelidade, registros objetivos de uso, avaliação independente e dados de seguimento são necessários.
Seguimento curto e pouca avaliação de generalização. Muitos estudos examinam efeitos ao final de programas breves. Ainda é limitado o conhecimento sobre manutenção de prática, generalização para diferentes cuidadores e rotinas, impacto de mudanças na equipe e custo de longo prazo para a família.
Baixa descrição do contexto de implementação. Dosagem do coaching, rotatividade de RBTs, carga horária, regras de comunicação, apoio da agência, política de faltas e acesso a recursos são variáveis frequentemente omitidas. Isso reduz a utilidade dos estudos para decisões de serviço no mundo real (Straiton et al., 2021).
Como integrar ACT de forma prática no programa de coaching para pais em ABA
O modelo abaixo é uma proposta clínica informada pela literatura, não um protocolo ACT validado isoladamente para aumentar engajamento em ABA. Ele organiza ACT como apoio breve ao coaching comportamental, sem substituir avaliação funcional, ensino de habilidades, alterações ambientais ou encaminhamento em saúde mental.
1. Intake e avaliação de linha de base
O objetivo é identificar a dimensão de engajamento prioritária e analisar suas condições, em vez de classificar o cuidador como aderente ou não aderente.
- Definir, em conjunto, um desfecho observável: presença, prática semanal, conclusão de tarefas, fidelidade em uma rotina, generalização ou manutenção.
- Selecionar uma rotina de alta relevância e baixa complexidade inicial, como transição para banho, início de tarefa escolar ou refeição.
- Levantar barreiras externas: horário, transporte, trabalho, outros filhos, acesso digital, suporte de coparente, sobrecarga terapêutica, regras de comunicação e compreensão do plano.
- Mapear barreiras internas sem julgamento: pensamentos recorrentes, emoções, esquiva, experiências anteriores com terapia, expectativas, autocrítica e fadiga.
- Fazer uma breve pergunta de valores: “Que tipo de relação ou ação parental importa para você nesta rotina, mesmo quando ela é difícil?”
A avaliação deve gerar hipóteses funcionais sobre o comportamento de engajar-se ou evitar a prática. Por exemplo, evitar uma tarefa pode ser negativamente reforçado por redução imediata de ansiedade ou por eliminação de conflito; isso não implica que o cuidador não valorize a intervenção.
2. Desenho do programa e do plano de ação
A programação ABA continua sendo o núcleo: definição operacional, avaliação funcional quando necessária, seleção de habilidades, procedimentos antecedentes, ensino, reforçamento, registro e critérios de domínio. ACT entra para tornar o plano executável e coerente com valores.
- Formular uma ação comprometida pequena e específica, em vez de pedir prática ampla: “Após o jantar, em três oportunidades nesta semana, apresentar a instrução X e registrar apenas se conseguiu seguir os três primeiros passos.”
- Definir previamente a adaptação quando a semana estiver sobrecarregada: reduzir ensaios, trocar rotina, usar vídeo curto ou fazer coaching remoto.
- Vincular a ação a um valor escolhido pelo cuidador, não apenas a uma meta do serviço: conexão, previsibilidade, autonomia, cuidado, brincadeira ou participação familiar.
- Antecipar obstáculos e planejar respostas: “Se surgir o pensamento ‘não vou conseguir’, então nomearei esse pensamento, farei uma respiração breve e testarei apenas o primeiro passo do plano.”
- Usar linguagem colaborativa: o cuidador participa da escolha da meta, da estratégia e da forma de medir esforço e benefício.
3. Supervisão da implementação: microintervenções ACT dentro do coaching
Em cada sessão de coaching, ACT pode ocupar aproximadamente cinco a dez minutos, integrado a modelação, ensaio e feedback. A sequência prática é:
1. Checagem contextual: “O que tornou a prática mais fácil ou mais difícil nesta semana?” Primeiro identificar eventos ambientais e demandas reais.
2. Contato breve com o presente: uma pausa de 30 a 60 segundos para notar respiração, postura e experiência atual antes de praticar. O objetivo não é relaxar obrigatoriamente, mas aumentar disponibilidade para observar.
3. Desfusão: quando surgir um pensamento como “sou incapaz” ou “vai dar errado”, convidar o cuidador a descrevê-lo como evento verbal: “Estou percebendo o pensamento de que não vou conseguir.” Não se discute se o pensamento é verdadeiro; discute-se se segui-lo aproxima ou afasta da ação escolhida.
4. Aceitação e escolha: validar a dificuldade e perguntar: “Com esse desconforto presente, qual é o menor passo que ainda cabe dentro do que você valoriza?”
5. Ensaio comportamental: o profissional modela a estratégia ABA; o cuidador ensaia com a criança em uma oportunidade planejada; recebe feedback específico; e escolhe uma tarefa pequena para a semana.
Exemplo: durante a transição para banho, uma mãe relata o pensamento “se eu insistir, vou piorar tudo”. O coach valida a história de cansaço e conflito, ajuda a nomear o pensamento, retoma o valor de previsibilidade e conexão e propõe ensaiar uma única instrução clara seguida de espera, escolha limitada e reforço por colaboração. O indicador de sucesso inicial é realizar o ensaio, não obter uma transição perfeita.
4. Avaliação e modificação
A cada duas a quatro semanas, revisar dados de engajamento e fidelidade junto com o cuidador. A revisão deve comparar o plano com o contexto de vida, e não cobrar “cumprimento”.
- Se há baixa presença por horário ou transporte, modificar a entrega do serviço antes de aumentar exigência de prática.
- Se há presença, mas baixa fidelidade, simplificar a estratégia, aumentar modelação, reduzir passos e realizar mais prática na rotina natural.
- Se há prática, mas alto custo emocional, rever demanda, consequências para o cuidador e necessidade de componente ACT ou de suporte interdisciplinar.
- Se o cuidador relata sofrimento clínico significativo, depressão, ansiedade intensa, risco ou trauma, atuar dentro do escopo de competência e coordenar avaliação/encaminhamento adequado. Coaching ACT-informado não substitui psicoterapia.
- Se dados mostram melhora, planejar generalização gradual: outra rotina, outro cuidador, menor apoio do coach e monitoramento de manutenção.
O que se pode esperar ao propor a participação parental?
Ao propor a participação parental, não é realista esperar disponibilidade constante, prática imediata ou alta fidelidade desde o início. É mais adequado esperar que o engajamento seja gradual, variável e sensível ao contexto: alguns cuidadores poderão começar participando da definição de metas ou observando uma estratégia; outros poderão praticar um único passo em uma rotina prioritária. A participação tende a ser mais sustentável quando a proposta é compreensível, relevante para a família, compatível com sua rotina e acompanhada de suporte suficiente para que o cuidador possa experimentar, receber feedback e ajustar o plano (Ingersoll & Berger, 2015; Raulston et al., 2019).
Também se deve esperar oscilações. Carga de vida, acesso e logística, apoio familiar, organização do serviço, qualidade da comunicação, clareza de papéis, aceitabilidade do tratamento, estresse, sintomas depressivos, autoeficácia, expectativas e viabilidade do plano podem ampliar ou reduzir a participação ao longo do tempo. Por isso, uma redução na prática ou na presença não deve ser interpretada automaticamente como desinteresse ou falta de comprometimento. Ela sinaliza a necessidade de reavaliar a função da proposta e as condições para que ela seja viável. A evidência ainda não permite afirmar que essas variáveis são mediadores causais estabelecidos; em ABA, a literatura direta permanece limitada, predominantemente qualitativa e metodologicamente heterogênea (Ferretti et al., 2025; Straiton et al., 2021; Trembath et al., 2019).
Na prática, o objetivo inicial não é que o cuidador execute todo o programa de maneira independente, mas que consiga dar passos pequenos, observáveis e escolhidos em conjunto: testar uma estratégia em uma rotina, registrar o que ocorreu, discutir obstáculos e decidir o próximo ajuste. À medida que a estratégia se torna mais simples, útil e ajustada ao contexto familiar, é possível esperar aumento progressivo de participação ativa e de fidelidade — sem supor que o percurso será linear.
ACT pode contribuir quando o cuidador valoriza a mudança, mas experiências internas difíceis — como medo de errar, culpa, cansaço, autocrítica ou pensamentos de incapacidade — competem com a prática. Nesse caso, ela pode apoiar o cuidador a reconhecer essas experiências sem precisar eliminá-las antes de agir e a escolher uma ação pequena, viável e coerente com seus valores. No entanto, ACT não deve ser usada como explicação individualizante para obstáculos materiais ou relacionais que exigem mudanças no próprio serviço. A combinação mais consistente com a literatura é: coaching colaborativo, metas pequenas e viáveis, ensino comportamental direto, feedback em contexto natural, flexibilização da entrega do serviço e ACT como apoio à ação valorizada diante de barreiras psicológicas modificáveis (Andrews et al., 2022; Maughan et al., 2024).
Referências
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