Retratação de Estudo Sobre Autismo: Exemplo de Como Narrativas Anti-Ciência Prejudicam Saúde Pública e Educação

A retratação do artigo “Autism Tsunami: the Impact of Rising Prevalence on the Societal Cost of Autism in the United States” ocorreu devido a questões metodológicas e conflitos de interesse não declarados. Dois anos após a publicação do artigo no Journal of Autism and Developmental Disorders em julho de 2021, a retratação foi realizada, após uma investigação decorrente de críticas às suas conclusões.

Especialistas externos revisaram o estudo e concluíram que ele distorcia o aumento dos diagnósticos de autismo e negligenciava possíveis causas desse aumento, como melhorias na vigilância e mudanças nos critérios diagnósticos. Além disso, os autores usaram estimativas exageradas e suposições que inflacionaram os custos. Os autores do artigo, Mark Blaxill, Toby Rogers e Cynthia Nevison, discordaram da retratação, mas não responderam aos pedidos de comentários da Spectrum.

O estudo projetava que entre 3 a 10% das crianças nos Estados Unidos seriam diagnosticadas com autismo até 2060, o que custaria ao país 5,5 trilhões de dólares por ano. Os autores argumentavam que a prevenção do autismo poderia reduzir significativamente esses custos, defendendo estratégias urgentes de prevenção. No entanto, críticos como Brittany Hand, da Universidade Estadual de Ohio, observaram que o artigo tinha “tons de eugenia“, ao sugerir a prevenção da existência de um grupo marginalizado.

Além dos problemas metodológicos, os autores também não declararam conflitos de interesse não financeiros, sendo que todos tinham ligações com organizações que promovem a falsa relação entre vacinas e autismo. David Mandell, professor de psiquiatria na Universidade da Pensilvânia, criticou duramente o artigo, descrevendo-o como “terrível” e metodologicamente incorreto, além de ser claramente tendencioso. Ele observou que os autores manipularam dados de outros estudos para inflacionar os custos de maneira proposital ou negligente.

Antes de ser retratado, o artigo foi citado 18 vezes, inclusive em chamadas para submissão de pesquisas sobre autismo na revista Translational Psychiatry.

A retratação deste artigo exemplifica claramente como narrativas anti-ciência podem impactar negativamente a saúde pública, especialmente em contextos onde a pesquisa científica é frágil e as políticas públicas são influenciadas por ideologias ou interesses questionáveis. Ao inflar deliberadamente os números de prevalência e custos, o estudo promoveu uma narrativa alarmista e perigosa, desviando o foco da verdadeira necessidade de fornecer suporte adequado e intervenções baseadas em evidências para pessoas autistas e suas famílias.

Em países como o Brasil, onde a produção científica ainda é limitada e o acesso a dados confiáveis é restrito, a propagação de estudos como este pode gerar sérios problemas. A falta de regulamentação e a interferência de narrativas anti-ciência nas políticas públicas tornam o acesso a intervenções eficazes, como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), ainda mais difícil. Esses impactos são agravados em contextos onde o pensamento hegemônico influencia as decisões políticas e a alocação de recursos, frequentemente ignorando ou distorcendo a ciência. Embora a retratação seja um passo importante para proteger a integridade científica, ela destaca um problema maior: a necessidade de promover políticas públicas baseadas em ciência sólida e de combater narrativas que incentivam a desinformação. Especialmente em países em desenvolvimento como o Brasil, é essencial construir um corpo de evidências robusto e garantir que as políticas públicas sejam informadas por essas evidências, protegendo a sociedade de influências prejudiciais que minam a confiança na ciência e, consequentemente, no acesso a intervenções eficazes.

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