Por Mylena Lima, BCBA-D, QBA
Existe um fenômeno que não dá mais para ignorar: práticas sendo divulgadas como Análise do Comportamento Aplicada (ABA) que, na prática, operam sem critério técnico, sem a implementação de análise funcional e, em alguns casos, com alto grau de coerção.
O argumento usado para sustentar esse tipo de atuação tem sido recorrente: “não há regulamentação, então posso fazer.” Essa afirmação não é apenas frágil. Ela é perigosa.
Ausência de regulamentação não é liberdade clínica
Quando já existem critérios mínimos estabelecidos para a implementação de serviços, não há que se falar em inovação sem considerar o que a literatura da área e agências regulamentadoras estabelecem— isso é variabilidade descontrolada rotulada de prática clínica. Na clínica, isso significa:
- Procedimentos aplicados sem avaliação funcional prévia;
- Decisões tomadas sem base em dados;
- Intervenções guiadas por tentativa e erro;
- Ausência de monitoramento de efeitos colaterais.
Esse cenário cria um risco concreto: o de intervenções que não ensinam repertórios novos, mas apenas suprimem comportamentos — frequentemente por meio de contingências aversivas. A prática baseada em evidências na ABA exige monitoramento contínuo e tomada de decisão baseada em dados, reconhecendo que o contexto e os valores do cliente são contribuintes primários para a prática comportamental (Baer, Wolf, & Risley, 1968; Contreras, Hoffmann, & Slocum, 2022).
Coerção como variável central
A análise do comportamento nunca ignorou os efeitos de contingências aversivas Skinner, 1953/2003; Sidman, 1989). Pelo contrário: desde os trabalhos clássicos, há descrição consistente dos seus efeitos colaterais, como:
- Respostas emocionais intensas;
- Aumento de comportamentos de fuga e esquiva;
- Generalização de controle aversivo para pessoas e ambientes.
Quando uma intervenção reduz comportamento às custas desses efeitos, o que se observa não é aprendizagem — é controle coercitivo.
Publicações contemporâneas no campo reforçam a necessidade de incorporar uma perspectiva sensível ao trauma na prática comportamental, especialmente em contextos em que há histórico de exposição a procedimentos aversivos ou quando o cliente apresenta sinais de estresse elevado (Rajaraman, Hanley, & Bloom, 2022; Taylor, LeBlanc, & Nosik, 2019). A adoção de cuidados informados pelo trauma (Trauma-Informed Care – TIC) não é um desvio da ABA, mas um alinhamento necessário para melhorar o engajamento e a intencionalidade da implementação (Austin, Rajaraman, & Beaulieu, 2024).
A pergunta sobre “trauma” precisa ser bem formulada
A discussão sobre possíveis efeitos traumáticos associados à ABA tem ganhado espaço. Parte dessa discussão é baseada em generalizações imprecisas. No entanto, há um ponto que precisa ser reconhecido com honestidade técnica:
- ABA baseada em evidência, com avaliação funcional, reforçamento positivo e foco em habilidades, está associada a ganhos significativos de desenvolvimento e qualidade de vida.
- Práticas mal conduzidas, especialmente aquelas com alto grau de coerção e baixa individualização, podem produzir efeitos aversivos relevantes — incluindo padrões compatíveis com respostas de estresse crônico.
Ou seja, a variável crítica não é o rótulo “ABA”. É a qualidade da implementação.
O que caracteriza uma prática comportamental válida
A literatura aplicada e os periódicos do campo, como o Behavior Analysis in Practice da Association for Behavior Analysis International, são consistentes ao descrever critérios mínimos para que uma intervenção seja considerada analítico-comportamental:
- Avaliação funcional explícita;
- Definição operacional de comportamento;
- Uso sistemático de dados;
- Análise contínua de progresso;
- Foco em mudanças socialmente significativas.
Intervenções que não seguem esses princípios não são variações legítimas da abordagem. São desvios.
Julgamento clínico: o núcleo do problema
O que diferencia uma prática ética de uma prática arriscada não é apenas o procedimento utilizado, mas o julgamento clínico que sustenta sua aplicação. Isso envolve, no mínimo, responder a perguntas como:
- Esse procedimento ensina uma habilidade ou apenas suprime um comportamento?
- Há alternativas menos aversivas disponíveis?
- O cliente tem algum grau de controle ou escolha no processo?
- Os dados sustentam a continuidade da intervenção?
A ausência desse tipo de análise transforma a prática em algo reativo, pouco previsível e potencialmente danoso. Além disso, a obtenção de consentimento informado clínico é um pilar ético e legal, garantindo que os responsáveis compreendam os objetivos, os possíveis resultados e os desafios comportamentais que podem surgir durante o tratamento (Graber & Maguire, 2024).
Consequências que vão além do indivíduo
Quando práticas inadequadas são expostas publicamente como “ABA”, os efeitos não se restringem ao cliente atendido. Há impacto direto em três níveis:
- Clínico: risco de aprendizagem empobrecida e aumento de respostas aversivas.
- Familiar: desinformação sobre o que constitui intervenção baseada em evidência.
- Sistêmico: fortalecimento de críticas generalizadas à ABA, inclusive aquelas que ignoram sua base científica.
Isso compromete a confiança social em uma área que, quando bem aplicada, tem evidência robusta de efetividade. A construção de relacionamentos terapêuticos fortes e o uso de cuidados compassivos são fundamentais para melhorar os resultados e a colaboração com os cuidadores (Taylor, LeBlanc, & Nosik, 2019).
O limite ético não é opcional
A prática baseada em Análise do Comportamento não é definida apenas por procedimentos, mas por um conjunto de compromissos:
- Com a evidência científica;
- Com a mensuração objetiva;
- Com a individualidade do cliente;
- Com a dignidade e a minimização de danos.
O tratamento digno de indivíduos, especialmente adultos com deficiências intelectuais e de desenvolvimento, exige que os analistas do comportamento promovam a autonomia, o respeito e a escolha em todas as interações (Reid, Rosswurm, & Rotholz, 2018). Quando esses elementos são abandonados, o que resta pode até manter o nome — mas já não representa o campo. A supervisão ética e responsável é crucial para garantir que esses padrões sejam mantidos e que os futuros profissionais sejam treinados adequadamente (Sellers, Alai-Rosales, & MacDonald, 2016).
Consideração final
O cenário atual não revela uma crise da ciência comportamental. Revela uma crise de padronização, supervisão e responsabilidade profissional exemplificada por apropriação indébita da terminologia ABA e autodeclaração de competência.
A análise do comportamento já dispõe de base conceitual, metodológica e ética suficiente para sustentar práticas de alta qualidade. O desafio, agora, é garantir que essa base não seja substituída por versões simplificadas, descontextualizadas — e, em alguns casos, potencialmente prejudiciais — daquilo que a ciência levou décadas para construir.
Como você enxerga a importância da ética e da padronização na prática da ABA? Compartilhe sua opinião nos comentários e envie este artigo para pais e outros profissionais da área.
Referências
Austin, J. L., Rajaraman, A., & Beaulieu, L. (2024). Facilitating Greater Understanding of Trauma-Informed Care in Applied Behavior Analysis: An Introduction to the Special Issue. Behavior Analysis in Practice, 17, 669–678. https://doi.org/10.1007/s40617-024-00988-0
Baer, D. M., Wolf, M. M., & Risley, T. R. (1968). Some current dimensions of applied behavior analysis. Journal of Applied Behavior Analysis, 1(1), 91–97. https://doi.org/10.1901/jaba.1968.1-91
Contreras, B. P., Hoffmann, A. N., & Slocum, T. A. (2022). Ethical Behavior Analysis: Evidence-Based Practice as a Framework for Ethical Decision Making. Behavior Analysis in Practice, 15, 619–634. https://doi.org/10.1007/s40617-021-00658-5
Graber, A., & Maguire, A. (2024). Clinical Informed Consent and ABA. Behavior Analysis in Practice, 17, 389–400. https://doi.org/10.1007/s40617-023-00902-0
Rajaraman, A., Hanley, G. P., & Bloom, S. E. (2022). Trauma-informed applications of behavior analysis. Behavior Analysis in Practice, 15(1), 1–15. https://doi.org/10.1007/s40617-021-00638-9
Reid, D. H., Rosswurm, M., & Rotholz, D. A. (2018). No Less Worthy: Recommendations for Behavior Analysts Treating Adults with Intellectual and Developmental Disabilities with Dignity. Behavior Analysis in Practice, 11, 71–79. https://doi.org/10.1007/s40617-017-0203-y
Skinner, B. F. (2003). Ciência e comportamento humano (J. C. Todorov & R. Azzi, Trads., 11ª ed.). Martins Fontes. (Obra original publicada em 1953)
Sellers, T. P., Alai-Rosales, S., & MacDonald, R. P. F. (2016). Taking Full Responsibility: the Ethics of Supervision in Behavior Analytic Practice. Behavior Analysis in Practice, 9, 299–308. https://doi.org/10.1007/s40617-016-0144-x
Sidman, M. (1989). Coercion and its fallout. Authors Cooperative.
Taylor, B. A., LeBlanc, L. A., & Nosik, M. R. (2019). Compassionate care in behavior analytic treatment: Can outcomes be enhanced by attending to relationships with caregivers? Behavior Analysis in Practice, 12(3), 654–666. https://doi.org/10.1007/s40617-018-00289-3
Sobre a Autora
Dra. Mylena Lima, BCBA-D, QBA Analista do Comportamento, mentora e consultora em ABA
Com mais de 20 anos de experiência em Análise do Comportamento Aplicada, atua na formação de profissionais, supervisão clínica e desenvolvimento de negócios sustentáveis na área. Já liderou serviços clínicos no Brasil e no Canadá, com foco em autismo e desenvolvimento infantil, e hoje orienta clínicas e profissionais a estruturarem práticas baseadas em evidência, com qualidade, governança e segurança do cliente.
É fundadora do Instituto Mylena Lima e criadora da Mentoria ABA 2.0 (Evolution), um modelo que integra ciência comportamental, OBM e estratégia para expansão de serviços com excelência. Também atua como professora em pós-graduação, pesquisadora e vice-presidente da ANPAC.
Seu trabalho é pautado por um princípio simples: sem ciência, não é cuidado — e sem estrutura, não há qualidade sustentável.