O Cuidado Invisível: Estresse e Saúde Mental de Mães de Autistas

Há uma frase que circula nas redes sociais, sempre em tom de alerta e incredulidade: “mães
de autistas têm níveis de estresse comparáveis aos de soldados em combate.” À primeira vista,
parece exagero. Mas não é. Essa constatação vem de estudos sérios que acompanharam a
rotina de mães de crianças, adolescentes e adultos com autismo, registrando informações em
entrevistas diárias e até medindo seus níveis hormonais. O que se descobriu é alarmante.
Essas mulheres vivem sob estresse crônico, com impactos físicos e emocionais profundos.

Um estudo específico realizado com 96 mães de adolescentes e adultos com Transtorno do
Espectro Autista (TEA) revelou que elas dedicam significativamente mais tempo aos cuidados e
tarefas domésticas, e menos tempo a atividades de lazer, em comparação com mães de
pessoas sem deficiência (Seltzer et. al. 2009). Os estudos também apontam para a relação
entre os sintomas de estresse pós-traumático em mães e o diagnóstico de TEA em seus filhos,
sublinhando a complexidade e o impacto psicológico dessa jornada (Roberts et. al. 2014).

O corpo delas reage como se estivesse em guerra. O hormônio associado ao estresse, que
deveria variar para ajudar o organismo a se adaptar, está em níveis que indicam desgaste
permanente. Isso compromete a imunidade, metabolismo e equilíbrio emocional. Não é apenas
uma sensação, é uma marca biológica de sobrecarga.

E os números reforçam o peso dessa realidade. Mães de autistas passam, em média, duas
horas a mais por dia nos cuidados com os filhos do que mães de crianças não autistas. São
interrompidas no trabalho em média uma vez a cada quatro dias, contra uma vez a cada dez
nas demais famílias. Têm três vezes mais chances de relatar um evento estressante em um
único dia e o dobro de probabilidade de estarem cansadas. Em outras palavras, seu tempo
pessoal desaparece, sua rotina profissional se complica e sua saúde mental fica
permanentemente em risco.

Mas para além das estatísticas, há a vida cotidiana. São mães que não conseguem marcar
uma consulta médica para si mesmas porque estão sempre ocupadas com a agenda do filho. E
isso inclui ligações da escola, crises de ansiedade, compromissos inesperados. São mulheres
que não podem relaxar em casa, porque precisam vigiar constantemente, pois o filho pode se
machucar com uma tesoura, colocar algo perigoso na boca ou simplesmente sair correndo pela
porta da frente. Mesmo quando crescem, os filhos continuam vulneráveis, e a casa precisa
seguir “à prova de segurança” — só que agora com um adolescente ou adulto, mais forte e
mais ágil.

A grande diferença entre essa batalha e uma guerra é que, no caso dessas mães, não há
previsão de trégua. O estresse não tem fim programado. A vida segue em estado de alerta.

No Setembro Amarelo, quando o país se mobiliza para falar sobre prevenção ao suicídio e
saúde mental, é urgente incluir essas mulheres no debate. O sofrimento delas é silencioso,
mas constante. Muitas desenvolvem depressão, ansiedade e outros transtornos mentais e há
casos reais de suicídio. A sociedade, que tantas vezes exalta a “força” dessas mães, precisa ir
além da romantização da resiliência. É preciso oferecer uma rede de apoio real com serviços
de cuidado compartilhado, acompanhamento psicológico, programas públicos de manejo
comportamental e maior flexibilidade por parte dos empregadores.

Falar da saúde mental das mães de autistas é falar de saúde pública, de cidadania e de
dignidade. Porque cada criança, adolescente ou adulto autista precisa de cuidado — mas quem
cuida também precisa ser cuidado. E ignorar essa batalha silenciosa é condenar essas
mulheres a uma guerra sem aliados.

Referências

Seltzer, M. M., Shattuck, P., Abbeduto, L., & Greenberg, J. S. (2009). Daily experiences of
mothers of adolescents and adults with autism spectrum disorder. Journal of Autism and
Developmental Disorders, 39(10), 1402-1412.
https://link.springer.com/article/10.1007/s10803-009-0844-y

Roberts, A. L., Koenen, K. C., Lyall, K., Ascherio, A., & Weisskopf, M. G. (2014). Women’s
posttraumatic stress symptoms and autism spectrum disorder in their children. Research in
Autism Spectrum Disorders, 8(6), 608-661. https://doi.org/10.1016/j.rasd.2014.02.004

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