Por Mylena Lima, BCBA-D, QBA
A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) tem enfrentado críticas contundentes da comunidade autista. Essas vozes, muitas vezes vindas de adultos que passaram por intervenções na infância, relatam que práticas voltadas à conformidade causaram danos emocionais e ignoraram sua autonomia (Anderson, 2023). O movimento pela neurodiversidade não é apenas uma mudança de vocabulário; é um convite para que profissionais, familiares e estudantes examinem o impacto ético de suas decisões (Mathur et al., 2024).
Como a ciência do comportamento pode responder a isso? Não se trata de abandonar a eficácia, mas de redefinir o que conta como resultado válido.
O que a literatura nos diz?
Recentemente, pesquisadores e clínicos têm publicado propostas de como a ABA pode se alinhar aos princípios neuroafirmativos. É fundamental esclarecer que essa literatura, em sua maioria, é composta por discussões éticas e marcos conceituais, não por protocolos fechados que garantam eficácia comparativa (Allen et al., 2026; Lerner et al., 2023).
Isso significa que não existe um “manual de ABA neuroafirmativa” pronto para ser aplicado. O que existe é um conjunto de diretrizes que exigem reflexão contínua:
- Quem escolhe as metas? Historicamente, metas de intervenção visavam reduzir traços autistas e promover comportamentos neurotípicos (Mathur et al., 2024). Uma abordagem ética exige que as metas sejam colaborativas, priorizando a qualidade de vida, a comunicação e a autonomia da própria pessoa autista, e não apenas a conveniência social (Lerner et al., 2023).
- O assentimento é real? A dignidade na intervenção significa que o cliente tem o direito de recusar, pausar ou modificar o apoio (Allen et al., 2026). Resistência não deve ser vista apenas como um comportamento a ser extinguido, mas como uma comunicação vital de desconforto ou falta de escolha (Johnson, 2025).
- Como avaliamos o sucesso? A validade social não pode ser medida apenas pela aprovação de cuidadores ou professores. Ela precisa incluir a perspectiva da pessoa atendida, acolhendo inclusive suas avaliações negativas sobre o processo (Anderson, 2023).
Expandindo a Prática: Participação e Governança
Para que a mudança seja profunda, não basta apenas ajustar a linguagem em relatórios. A literatura recente tem enfatizado a necessidade de incluir vozes autistas não apenas na definição de metas individuais, mas na própria governança e desenho dos serviços (Johnson, 2025). Isso significa que clínicas e profissionais devem buscar ativamente o feedback da comunidade neurodivergente para estruturar suas práticas e políticas internas. Quando as pessoas autistas participam do planejamento dos serviços, o foco muda de “consertar déficits” para remover barreiras e promover o bem-estar genuíno.
Além disso, a implementação de práticas neuroafirmativas exige uma mudança na forma como treinamos e supervisionamos as equipes. A formação de terapeutas deve ir além do ensino de procedimentos técnicos, incorporando o desenvolvimento de habilidades de escuta ativa, empatia e flexibilidade (Allen et al., 2026). Os profissionais precisam aprender a reconhecer e respeitar as diferentes formas de comunicação, incluindo aquelas que não envolvem a fala, e a adaptar o ambiente para reduzir a sobrecarga sensorial, em vez de exigir que a pessoa autista suporte o desconforto.
Essa transição também demanda que sejamos honestos sobre os limites da nossa ciência. A ABA é uma ferramenta poderosa para o ensino de habilidades, mas não deve ser usada para forçar o mascaramento (camuflagem) de características autistas naturais que não causam dano (Mathur et al., 2024). O objetivo final de qualquer intervenção comportamental ética deve ser apoiar a pessoa a viver a sua melhor vida, em seus próprios termos, e não transformá-la em uma versão mais aceitável para a sociedade.
O papel da supervisão
A transformação da prática acontece no dia a dia. Nas fases de consultoria comportamental — Avaliação Inicial/Linha de Base, Design de Programas, Supervisão e Implementação, e Avaliação e Modificação — a equipe deve se perguntar: “Esta meta beneficia a autonomia do cliente ou apenas o aproxima de uma norma arbitrária?”.
Quando compreendemos que o autismo é uma forma válida de diversidade humana, passamos a desenhar intervenções que apoiam o indivíduo em seus próprios termos, em vez de tentar consertá-lo.
Um alerta para a profissão
Para analistas do comportamento, incorporar práticas neuroafirmativas é uma responsabilidade ética e clínica, além de um componente essencial da qualidade do serviço. Decisões sobre avaliação, metas, procedimentos e resultados precisam ser guiadas pela dignidade, pelo assentimento, pela autodeterminação e pela participação efetiva das pessoas autistas. Ignorar esse compromisso pode manter serviços orientados pela normalização e pela conveniência de terceiros, tornar menos visíveis experiências de desconforto ou recusa, enfraquecer a validade social das intervenções e comprometer a confiança necessária à relação terapêutica. Em vez de tratar as críticas da comunidade autista como uma resistência externa, a profissão precisa considerá-las um dado indispensável para revisar práticas, reduzir riscos de dano e sustentar um cuidado que seja eticamente defensável (Allen et al., 2026; Anderson, 2023; Mathur et al., 2024; Johnson, 2025).
Referências
Allen, L. L., Mellon, L. S., Syed, N., Johnson, J. F., & Bernal, A. J. (2026). Neurodiversity-affirming applied behavior analysis. Behavior Analysis in Practice, 19, 302–324. https://doi.org/10.1007/s40617-024-00918-0
Anderson, L. K. (2023). Autistic experiences of applied behavior analysis. Autism, 27(3), 737–750. https://doi.org/10.1177/13623613221118216
Johnson, J. F. (2025). From harm to healing: Building the future of ABA with autistic voices. Societies, 15(3), Article 72. https://doi.org/10.3390/soc15030072
Lerner, M. D., Gurba, A. N., & Gassner, D. L. (2023). A framework for neurodiversity-affirming interventions for autistic individuals. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 91(9), 503–504. https://doi.org/10.1037/ccp0000839
Mathur, S. K., Renz, E., & Tarbox, J. (2024). Affirming neurodiversity within applied behavior analysis. Behavior Analysis in Practice, 17, 471–485. https://doi.org/10.1007/s40617-024-00907-3