Internações psiquiátricas pediátricas quase dobraram em cinco anos. O Brasil tem 2,4 milhões de diagnósticos de TEA. E o que fazemos com essa informação define o tipo de profissional que escolhemos ser.
Por Mylena Lima | Março de 2026 | Saúde Mental
Os dados não deixam margem para interpretação otimista.
No estado de São Paulo, as internações por transtornos mentais e comportamentais entre crianças de 5 a 9 anos cresceram 98,3% entre 2020 e 2025, segundo dados oficiais da Secretaria de Estado da Saúde, registrados no Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS. Na faixa de 10 a 14 anos, o crescimento foi de 78,1% no mesmo período. A faixa de 5 a 9 anos também concentra o maior volume absoluto de procedimentos ambulatoriais por transtornos mentais, com crescimento de 775,6 mil atendimentos em cinco anos.
No plano nacional, o Instituto de Psicologia da USP documentou que os atendimentos no SUS por ansiedade na faixa de 10 a 14 anos cresceram quase 2.500% entre 2014 e 2024. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, o índice chegou a 3.300% no mesmo período.
Na Bahia, estudo publicado na Revista FT com base no DATASUS registrou crescimento superior a 100% nas internações anuais por transtornos mentais entre crianças e adolescentes entre 2020 e 2024, passando de 192 para 385 internações no período. Mais de 90% dessas internações ocorreram em caráter de urgência.
Esses dados, isoladamente, já seriam suficientes para exigir atenção. Mas há outro conjunto de números que os contextualiza de forma ainda mais direta para quem atua com ABA.
O retrato oficial do autismo no Brasil
Em maio de 2025, o IBGE divulgou os resultados preliminares do Censo Demográfico 2022 sobre autismo, a primeira vez na história em que o Brasil tem um número oficial sobre a prevalência do TEA no país.
Os dados identificaram 2,4 milhões de brasileiros com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista, correspondendo a 1,2% da população. A prevalência foi maior entre homens (1,5%) do que entre mulheres (0,9%). A faixa etária de maior prevalência foi a de 5 a 9 anos, com 2,6% das crianças diagnosticadas, ou seja, 1 em cada 38. Entre meninos dessa faixa, o percentual chega a 3,8%. No total, são 1,1 milhão de crianças de 0 a 14 anos com diagnóstico de autismo no Brasil.
Esses números representam apenas diagnósticos confirmados. A estimativa real, considerando subdiagnóstico e acesso desigual a serviços especializados, é substancialmente maior.
Mais diagnósticos sem mais acesso a intervenção de qualidade não é progresso. É demanda represada.
O que a pandemia fez e o que ela revelou
O aumento nas internações a partir de 2021 coincide com o período pós-pandemia em todos os recortes regionais analisados, o que é consistente com o que a literatura internacional documenta sobre o impacto do isolamento no desenvolvimento emocional infantojuvenil.
Para crianças com TEA, o impacto foi desproporcionalmente severo. Revisão publicada na Brazilian Medical Students identificou que 72,1% dos pais de crianças autistas relataram mudanças comportamentais significativas durante a pandemia. As principais: ansiedade (41,7%), irritabilidade (16,7%) e comportamentos obsessivos (11,1%).
A justificativa clínica é direta: para pessoas com TEA, rotina estruturada não é preferência. É suporte funcional ao desenvolvimento. A interrupção das terapias presenciais, das rotinas escolares e das atividades estruturadas produziu regressões em habilidades que levaram meses ou anos para ser construídas, e que precisaram ser reconstruídas com recursos ainda mais escassos do que os disponíveis antes de 2020.
A estrutura que falta
O Brasil tem apenas 52 unidades de emergência psiquiátrica em todo o território nacional, segundo estudo da Faculdade de Medicina da USP e da FMABC. Dessas unidades, 83% relataram ausência de estrutura adequada para atender crianças e adolescentes. 59% enfrentam superlotação crônica.
A conta é direta: mais crianças chegando a situações de crise, menos estrutura para recebê-las, e um tempo de espera por atendimento especializado que pode inviabilizar a intervenção precoce justamente quando ela seria mais eficaz.
O que esses números exigem de quem trabalha com ABA
Esses dados não são apenas contexto. São demanda direta ao campo.
1,1 milhão de crianças de 0 a 14 anos com diagnóstico de TEA no Brasil. Internações psiquiátricas pediátricas quase dobrando em cinco anos. 52 emergências psiquiátricas para um país de 215 milhões. Esses números descrevem um sistema que chega tarde. O que pode chegar cedo é a intervenção qualificada.
Para profissionais de Análise do Comportamento Aplicada, a implicação é direta: avaliação rigorosa, planejamento individualizado, monitorização sistemática de progresso e supervisão tecnicamente competente não são padrões de excelência opcionais. São o mínimo necessário para que a intervenção produza resultado antes que a crise se instale.
Uma criança com TEA que recebe diagnóstico e não tem acesso imediato a intervenção de qualidade não está em situação neutra. Está perdendo janelas de desenvolvimento que não se reabrem com a mesma facilidade.
A crise de saúde mental infantojuvenil no Brasil não vai se resolver com mais internações. Vai se resolver com mais acesso a profissionais que saibam identificar necessidade clínica cedo, intervir com método e sustentar qualidade ao longo do tempo.
A pergunta que cada profissional da área precisa responder não é se vai se qualificar. É se vai fazer isso antes ou depois de perceber que precisava.
Referências
1. Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS). Internações e atendimentos por transtornos mentais e comportamentais em crianças e adolescentes, 2020-2025.
2. Instituto de Psicologia da USP. Dados sobre atendimentos no SUS por ansiedade em crianças e adolescentes, 2014-2024. Publicado no Jornal da USP, fevereiro de 2025.
3. Sousa C. D. S. et al. Perfil epidemiológico de crianças e adolescentes com transtornos mentais atendidos pelo SUS na Bahia, 2020-2025. Revista FT. Base de dados: DATASUS/SIH/SUS.
4. IBGE. Censo Demográfico 2022: Pessoas com Deficiência e Pessoas Diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista. Resultados preliminares da amostra. Divulgado em 23 de maio de 2025.
5. Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e Faculdade de Medicina do ABC (FMABC). Estudo sobre emergências psiquiátricas no Brasil. Publicado e reportado pela Agência Brasil (EBC), julho de 2022.
6. Zuccolo P. F. et al. Os desafios impostos pelo isolamento social durante a pandemia da COVID-19 em crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista e seus responsáveis. Brazilian Medical Students.
Mylena Lima
BCBA, pós-doutora em psicologia do desenvolvimento. Fundadora de 6 clínicas ABA e consultora de gestão clínica para profissionais e clínicas no Brasil e no exterior.
@mylenalima.consultoria